Por Lucimerio Araujo (com assistência de Gemini) - 4 de Janeiro de 2026
Na madrugada de ontem, 3 de janeiro de 2026, o mundo assistiu atônito — embora não inteiramente surpreso — a mais uma demonstração de força bruta. Sob o pretexto de "restaurar a ordem" e capturar Nicolás Maduro, caças e drones dos Estados Unidos bombardearam Caracas. O saldo preliminar: 40 mortos, edifícios civis destruídos e o sequestro de um chefe de Estado.
A Casa Branca e o Pentágono chamam isso de "Operação de Libertação". A grande mídia ocidental chama de "Intervenção Cirúrgica". Mas, se aplicarmos a fria letra da lei e a lógica histórica, só existe um nome técnico para o que ocorreu na Venezuela: Terrorismo de Estado.
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Para entender a gravidade do ato, não precisamos recorrer a manuais anti-imperialistas. Basta usarmos a definição oficial do próprio governo dos EUA. Segundo o Título 22 do Código dos EUA, Seção 2656f(d), terrorismo é definido como:
"Violência premeditada e motivada politicamente, perpetrada contra alvos não-combatentes."
Vamos submeter a ação de ontem a este crivo:
Foi premeditada? Sim. Uma operação dessa complexidade exige meses de planejamento.
Foi motivada politicamente? Sim. O objetivo era a mudança de regime e o controle geopolítico.
Foi perpetrada contra não-combatentes? Sim. Bombas em áreas urbanas mataram civis que dormiam, e a infraestrutura de uma cidade não é um alvo combatente.
A conclusão é matemática: os EUA cometeram um ato terrorista. A única razão pela qual a palavra "terrorismo" não estampa as manchetes de hoje é o monopólio da narrativa que Washington detém.
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O ataque a Caracas não foi um evento isolado, mas o clímax de uma campanha de terror que começou semanas antes, longe das câmeras. Durante todo o mês de dezembro de 2025, a Marinha dos EUA conduziu uma guerra não declarada no Caribe e no Pacífico.
Sob a vaga acusação de "narcoterrorismo", dezenas de embarcações foram perseguidas e afundadas. Não houve abordagem, não houve julgamento, não houve direito de defesa. Estima-se que cerca de 30 barcos foram destruídos e 100 pessoas mortas — marinheiros, pescadores e tripulantes tratados como danos colaterais descartáveis.
Essa tática configura terrorismo econômico e psicológico: o objetivo era criar um medo paralisante em qualquer navio comercial que ousasse se aproximar da Venezuela. Ao explodir barcos civis para enviar uma mensagem política, os EUA reviveram as táticas de pirataria, agora com orçamento estatal.
Essa metodologia não é nova; ela é fundacional na projeção de poder americano. A lógica usada ontem na Venezuela é a mesma aplicada em 1945 no Japão.
Quando os EUA lançaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, o alvo não eram bases militares estratégicas, mas o psicológico do Imperador e da população japonesa. Eles incineraram centenas de milhares de civis — crianças, idosos, mulheres — para forçar uma decisão política.
Aquilo foi, por definição, o maior ato de terrorismo da história humana. Ontem, em escala menor, a lógica se repetiu: aterrorizar uma capital latino-americana, ignorando a soberania e a vida civil, para impor a vontade de Washington.
Talvez o aspecto mais perturbador seja a cobertura da grande mídia corporativa. Enquanto analisam a eficácia dos drones ou o impacto no preço do petróleo, jornais e emissoras de TV falham deliberadamente em questionar a legalidade do ato.
Existe uma semântica do poder operando:
Quando um grupo insurgente ataca: é Terrorismo.
Quando os EUA bombardeiam uma capital e sequestram um presidente: é Intervenção.
Essa sanitização da linguagem serve para desumanizar as vítimas venezuelanas e legitimar a barbárie. Ao se recusarem a chamar as coisas pelo nome, os grandes veículos de comunicação tornam-se assessores de imprensa de um Estado que age à margem da lei internacional.
Por que, então, a BBC, a CNN ou a ONU raramente usam a palavra "terrorista" para descrever os EUA ou a França, por exemplo?
A resposta reside no monopólio da narrativa. Os Estados potentes criaram uma distinção artificial para se protegerem:
O Agente: Se quem joga a bomba usa farda oficial e obedece a uma bandeira estatal reconhecida, chama-se "Ato de Guerra" ou "Dano Colateral".
O Outro: Se quem joga a bomba não tem um Estado (como a Al-Qaeda) ou é um Estado "inimigo" (como o Irã, na visão dos EUA), chama-se "Terrorismo".
No caso de Hiroshima e Nagasaki, há um agravante que fortalece seu argumento: o objetivo não era destruir uma base militar e "sem querer" atingir civis. O objetivo era atingir a população civil para criar um choque psicológico tão grande que o Imperador se rendesse. Isso é a essência pura do terrorismo: usar a dor de inocentes como alavanca política.
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O que ocorreu na Venezuela em 3 de janeiro de 2026 estabelece um precedente sombrio. Se aceitarmos que uma superpotência pode bombardear capitais, afundar navios civis e sequestrar líderes estrangeiros sem ser rotulada de terrorista, então o Direito Internacional morreu.
Não estamos diante de uma guerra convencional. Estamos diante de um Estado Terrorista Hegemônico que, blindado por sua força militar e midiática, transformou o mundo inteiro em seu campo de batalha — onde a única lei que vigora é a lei do mais forte.